APONTAMENTO PARA A REFLEXÃO SOBRE A EDUCAÇÃO NO COTIDIANO DA ESCOLA

26/01/2012 21:59

 

Desde que passei a conviver no cotidiano da escola enquanto educador, muitas alegrias tenho vivenciado junto a alunos e alunas, a colegas educadores/as, diretores/as, funcionários/ e algumas vezes com pais e mães da comunidade escolar. Discussões/reflexões de projetos, ações e iniciativas diversas, visando contribuir para que a escola possa cumprir sua função ou obrigação social.

 

 

Vejo o desabrochar de potencialidades de alunos e alunas, vivencio a concretização de sonhos e esperanças de pessoas que muitas vezes não tiveram acesso a uma formação suficiente e adequada para o trabalho docente. Pessoas que às vezes chegam a idealizar a educação como a única solução para os problemas das pessoas, das sociedades e da humanidade. Vejo acontecer verdadeiros milagres em espaços muitas vezes inadequados e sem as mínimas condições de desenvolvimento de uma prática pedagógica fértil.

 Mas também tenho visto horrores, práticas que demonstram concepções e visões de ser humano, de sociedade e de mundo que reproduzem a concepção capitalista, elitista, discriminatória, preconceituosa e, portanto, desumana. Tenho visto alunos e alunas serem tratados como marginais, como “os que não querem nada”, como “burros”, malandros/as, desobedientes, etc. Desde a educação infantil até o ensino médio tenho visto e ouvido muitos “cale a boca menino”! “Aqui quem manda sou eu”! “Saia da sala”! Presenciei práticas de assédio moral a alunos/as, a professores/as, a funcionários/as. Vi pais ou mães serem chamados/as à escola quase sempre para ser constrangidos/as, ouvindo: seu filho/a é desobediente, é prequiçoso/a, é desbocado/a, é mal educado/a, não quer nada, etc. Vi até banners expostos por diretores com frases do tipo: “sem submissão não há aprendizagem”. Enfim, tenho visto muitas podagens, muitas imposições, muitas proibições e muitos limites, às potencialidades de alunos/as, de educadores/as e funcionários/as, etc.

 

Tenho sondado a alunos/as e sobre o sentimento e a ligação dos mesmos com a escola e muitos/as afirmam que só vêm à escola porque não há outro espaço ou instituição que possa lhes assegurar a formação acadêmica Isto é, porque não outro jeito. A maioria estrondosa afirma que o lugar mais democrático da escola é o pátio. A sala de aula além de ser enfadonha, tem sido para muitos/as alunos/as um tédio, de terror, de punição.

 

Vendo e ouvindo tudo isso e muito mais, tenho lido e procurado analisar a situação no sentido de encontrar alguma explicação que me ajude a compreender essa realidade, e enquanto educador tentar contribuir para melhorar essa realidade ou pelo menos, para não reforçar essa prática excludente da educação tão presente na escola brasileira.

 

Um aspecto que tenho analisado é o formato da maioria das escolas e todas as salas de aula. As escolas quase sempre têm uma arquitetura muito parecida com o formato dos presídios de segurança pública. Salas em pavilhões com espaço descoberto entre um pavilhão e outro. As salas de aulas são quadradas com laterais mais compridas do que a largura, com cadeiras enfileiradas e, portanto, uma atrás da outra, onde alunos/as que devem estar sentados (quase sempre superior a 40 unidades). Aí o diálogo é estupidamente reduzido, senão anulado, com um birô colocado em um dos cantos da sala ou no centro da frente, voltado para as cadeiras, onde estão sentados/as alunos/as. No birô, deve se posicionar o/a professor/a para dar ou ministrar a aula enquanto regente da classe.  

O formato das salas de aula em nosso país mais parece um ônibus com o motorista voltado para os passageiros. Se o ônibus fosse assim, não sairia do lugar, não andaria e não chegaria a lugar nenhum. Será que é isso que se pretende fazer com a nossa educação? Essa estrutura representa é resultado de uma concepção ocidental que desconsidera, ou melhor, desrespeita a concepção de ser humano, sociedade, educação e mundo dos povos que aqui viviam antes da invasão branca, portuguesa, européia. Na concepção dos povos originários (“indígenas”) todos os espaços sociais são construídos ou criados de forma circular, onde o relacionamento ocorre de maneira horizontal e o lugar da aprendizagem e da vivência é o centro, tendo todas as moradias voltadas para esse espaço coletivo. Na nossa concepção ocidental de educação, o aprendizado ocorre dentro de uma sala de aula (quase que propriedade do/a regente professor/a), com conteúdos, assuntos, conceitos e atitudes impostos e que muitas vezes reforçam a estratificação social e pouco contribui para a formação de cidadãos/ãs que buscam construir uma sociedade justa, fraterna e igualitária.

 

Fico impressionado com a concepção dominante no espaço escolar. Quase sempre ao chegar às salas de aula, proponho às turmas uma arrumação circular dos assentos e me incluo nesse círculo. Ao entrar outro/a colega, indaga à turma: quem fez essa bagunça? Ao receber a informação dos/as alunos/as, diz: só podia ser! Nesse sentido, entendo que entre vários aspectos, quatro necessitam de uma maior atenção por quem faz educação em nosso país: a arquitetura/estrutura física do espaço escolar, a formação docente, a grade curricular e a gestão escolar.

 

Primeiro, compreendo que não dá mais para os engenheiros e arquitetos elaborarem as plantas de espaços educativos sem a presença, opinião, orientação e acompanhamento de pedagogos e/ou especialistas que tenham uma visão de educação, de ser humano e de sociedade horizontal, dialogal, contextualizada, libertária, igualitária e, sobretudo, plural que respeite as histórias e os valores de cada pessoa, de cada sociedade e de cada civilização. De modo geral, a estrutura física e a arrumação do espaço e das pessoas nas salas de aula, já impõem de forma predeterminada uma situação de desigualdade que impede uma relação horizontalizada de diálogo. Com isso, alunos/as são diminuídos/as enquanto sujeitos do processo de aprendizagem. São colocados numa situação de passivos que devem receber aquilo que é trazido, dito e imposto pelo/a regente. É a chamada educação bancária tão refletida por Paulo Freire.

 

Por outro lado, vejo como urgente uma revisão geral na grade curricular, pois são impostos conteúdos sem significado prático ou simbólico na vida de alunos e alunas. Sutilmente esses conteúdos impostos pelos livros didáticos baseados nos propalados “Parâmetros Curriculares Nacionais” vão introjetando e/ou reforçando nas pessoas e na sociedade em geral a idéia de que escola pública não presta. Isto é, vai descaracterizando-a, enfraquecendo-a e desqualificando-a. Com isso, em paralelo, introduz-se na população a concepção e os interesses empresariais capitalistas com a finalidade de privatizar a escola. É preciso que haja uma reação a essa imposição dos conteúdos curriculares, pois além de na prática desfigurar a escola pública, de modo geral abordam elementos estranhos à realidade, às expressões culturais de cada pessoa, de cada comunidade e levam as pessoas acreditarem que os conteúdos e as realidades apresentadas são as verdadeiras, as avançadas e atualizadas. A conseqüência imediata é a indução de alunos/as verem suas realidades, seu mundo como atrasado e que ali não terão vida digna. Daí resulta o êxodo campo-cidade. Outro aspecto que merece reflexão é o fato de tirar do educador e da educadora a autonomia em pensar o fazer pedagógico, transformando-os em meros monitores, reprodutores de conteúdos, idéias e abordagens que representam interesses estranhos à educação.

 

Em se tratando da formação docente, nas últimas décadas tem-se autorizado a abertura de cursos de licenciaturas que não atendem minimamente às exigências e necessidades de um processo adequado de formação docente tanto na modalidade presencial quanto na modalidade a distância. Há casos que são verdadeiras corridas para a concessão (para não dizer venda) de diplomas e certificados. Além da má qualidade, as abordagens de grande parte dos cursos de graduação na formação docente, reproduzem a visão empresarial capitalista e autoritária. Nossos/as professores/as saem da faculdade com uma formação muito deficiente em vários aspectos, mas principalmente no se refere à compreensão do que venha ser educador/a. Concluem-se cursos com visão de alunos e alunas como tábuas rasas, sem história, valores, cultura, sonhos, desejos. Não será por isso que crianças, adolescentes, jovens e até adultos são constantemente bestificados, desrespeitados, agredidos cotidianamente na escola? 

 

Por fim, a gestão da educação de modo geral baseia-se numa concepção autoritária, centralizadora.  Dificultando o surgimento e o desabrochar de práticas, idéias e visões plurais e democráticas. Por não existir em nosso sistema educacional uma formação de gestores/as para a democracia, ocorre um enjaulamento das pessoas num modelo vertical autoritário, transformando a gestão em algo de responsabilidade da chefia, seja ela a pessoa do/a diretor/a ou a chamada equipe diretiva. Por isso, quando alguém que não está designado para tal função quer propor algo, é visto como intruso/a ou metido/a. Dessa forma, acontece na escola, uma separação insensata entre o administrativo e o pedagógico. Daí decorre, por um lado, decisões impostas de cima que produzem efeitos muito negativos em todo o ambiente escolar. Por outro lado, a prática pedagógica e educativa de cada educador/a fica isolada sem que ocorra sequer, a socialização, a partilha, a avaliação coletiva daquilo que acontece diuturnamente nas salas de aula. Só a gestão e a prática educativa democrática é que poderá levar a escola a cumprir sua função/obrigação social contemporânea de construir, refletir e criticar o conhecimento ao invés de ser mera repassadora ou reprodutora de conhecimentos estranhos de forma mecânica, sem significado para a vida das pessoas envolvidas no processo.

José Luiz Gois

Pprofº de História da Rede Estadual de Alagoas e Sergipe

Pós Graduação: Formação Sócio-econômica do Brasil e Gestão Escolar

 

FONTE: radio.japoatafm.com.br

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